O ‘Deus de Jesus’ e as Catástrofes
Um apelo recorrente dos adeptos e simpatizantes da teologia relacional (teísmo aberto do terceiro mundo) é o de preferir o Deus demonstrado por Jesus e não o dos religiosos. Religiosos para estes são em especial calvinistas e arminianos que concordam com a bíblia sobre o controle de Deus na natureza criada, inclusive sua presciência e ação determinativa mesmo em calamidades naturais.
O que tentarei demonstrar é o quanto esse apelo contradiz suas reivindicações. Primeiro por que existe uma tentativa forçada de fazer Jesus, seu ensino, e aquilo que os evangelhos descrevem dele como separados das outras porções das Escrituras. E segundo que o Deus apresentado nesse sistema de pensamento é esquizofrênico ou outro deus, que contradiz não apenas o Deus da Bíblia como um todo, mas o próprio Jesus. Esta dupla distinção, de Jesus das Escrituras, e de Jesus do Deus do Antigo Testamento, é usada em oposição aquilo que essas pessoas consideram cruel ou desamoroso da parte de Deus com relação ao seu controle e soberania. Um ponto parentético curioso seria de que a omissão de Deus e o seu desgoverno sobre sua criação não parecem torná-lo mais amoroso em hipótese alguma.
Um fato histórico já é constrangedor o suficiente para qualquer apelo a Jesus e ao seu ensino em contraposição de outras partes das Escrituras: há escritos apostólicos quem antecedem as narrativas de Jesus nos evangelhos. O fato evidente é que em suas cartas Paulo já reivindica a veracidade do seu evangelho (Gl 1.11,12) e de ter sido ele também uma testemunha ocular de Cristo (1 Co 9.1). Logo, podemos, assim como os crentes primitivos, aceitar seu testemunho e doutrina como palavra de Deus, e não de homens (1 Ts 2.13), confiando que através de sua pregação Cristo era tudo em todos (Cl 3.11) e que não havia outro fundamento em seu ministério senão o de pregar a “Cristo e este crucificado” (1 Co 2.2). Qualquer rejeição de tal autoridade já é suficiente para desclassificar qualquer reivindicação do título de cristão. De fato os escritos apostólicos e o Novo Testamento são o ensino de Cristo.
Também nas afirmações de Cristo e sua relação com o Antigo Testamento as coisas ficam estreitas e problemáticas para qualquer tentativa de fazer uma cisão e colocar em oposição o Deus de Jesus ao Deus das Escrituras. Ao contrário do que querem muitos evangélicos em geral pensar e ensinar, Jesus nunca disse que seu ensino era algum rompimento com aquilo que havia na Lei e nos profetas, antes vemos Cristo afirmando ser o cumprimento pleno do que havia sido predito. A análise de suas palavras quando confrontando a posição hipócrita dos fariseus esclarece muita coisa. A posição de Jesus em apelar para o texto das Escrituras é freqüente, seja para demonstrar o erro ou o cumprimento de alguma profecia:
“Ainda não leste esta Escritura…?” (Mc 12.10); “Nunca lestes nas Escrituras…?” (Mt 21.42); “..vocês nunca leram..?” (Mt 21.16); “Bem profetizou o profeta Isaías a respeito de vós…” (Mc 7.6); “… isto é para que as Escrituras se cumpram” (Mc 14.49). “Examinai as escrituras… são elas que de mim testificam” (Jo 5.39); “Se vocês cressem em Moisés creriam em mim…” (Jo 5.46); “E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras…” (Lc 24.27); “… convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos” (Lc 24.44); “Não leste o que fez Davi?… Não lestes na lei?… Mas se vós soubésseis o que significa…” (Mt 12.3-7).
O Senhor Jesus enfatiza que o testemunho da Escritura é o testemunho dele mesmo. Crendo no testemunho de Cristo é impossível contrariar ou negligenciar alguma parte da Lei, dos Salmos, dos profetas, dos escritos apostólicos… A visão de João em Apocalipse é ainda mais clara:
E estava vestido de uma veste tingida em sangue; e o nome pelo qual se chama é A Palavra de Deus (Ap 19.13).
E em busca de algum escape daquilo que testemunham as Escrituras sobre a soberania e o domínio do Senhor, o apelo ao ‘Deus de Jesus’ é na verdade uma contradição óbvia. Ele é o Senhor dos céus e da terra e faz o que lhe apraz (Sl 115.3; Is 46.10). Ele é quem dá e tira a vida (Dt 32.39). Ele não apenas criou, mas sustenta tudo por meio de sua palavra poderosa (Hb 1.3). Nele tudo subsiste (Cl 1.17). Ele é a Palavra que estava com Deus e era Deus desde o princípio (Jo 1.1).
Poderia algo acontecer fora de seu domínio? Não seria o ‘Deus de Jesus’ a quem esses sujeitos apelam uma negação do próprio Senhor? Parece que alguns adeptos desse socinianismo deísta pós-moderno estão ocupados demais fazendo exegese de catástrofes e apelos emocionais no Twitter para se importarem com a pessoa, o ensino e a obra de Cristo.

